A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e o CNPq abriram processo seletivo com vinte e três bolsas para pesquisadores atuarem em redes quânticas, tecnologia de blockchain e sistemas descentralizados de identidade.
A iniciativa faz parte da Chamada Pública 12/2026 vinculada ao Programa de Capacitação Institucional, supervisionado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
As inscrições para cientistas e especialistas foram abertas nos primeiros dias deste mês e permanecerão disponíveis até o dia 26 de outubro em ambiente virtual oficial.
O financiamento do programa utiliza recursos orçamentários do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para garantir a atração e fixação de profissionais altamente qualificados.
Os pesquisadores selecionados iniciarão suas atividades de desenvolvimento em dezembro deste ano, com foco na blindagem das redes digitais contra futuras ameaças tecnológicas avançadas.
Blindagem criptográfica contra a computação quântica em redes acadêmicas
O primeiro eixo prioritário do edital contempla o desenvolvimento de uma arquitetura multidomínio para redes de comunicação quanticamente seguras. O avanço acelerado dos computadores quânticos no cenário global ameaça tornar obsoletos os métodos tradicionais de criptografia assimétrica que hoje protegem transações bancárias e segredos de estado.
Para antecipar essas vulnerabilidades futuras, os bolsistas selecionados trabalharão na implementação prática de protocolos de distribuição quântica de chaves na malha física de fibra óptica do backbone acadêmico brasileiro. A técnica utiliza propriedades fundamentais da física de partículas para detectar qualquer tentativa de interceptação de pacotes de dados.
Concomitantemente, a equipe implementará novos algoritmos de criptografia pós-quântica baseados em problemas matemáticos complexos que resistem a tentativas de quebra por processadores quânticos. O objetivo é assegurar transição suave dos sistemas governamentais antes da consolidação de máquinas quânticas de alta escala.
A infraestrutura experimental será instalada em enlaces metropolitanos conectando universidades federais e institutos de pesquisa de ponta. Os testes de estresse avaliarão o desempenho da transmissão sob condições operacionais reais de tráfego pesado de dados e oscilações térmicas nas fibras.
A formação de massa crítica técnica nacional nesse domínio impede que o país se torne totalmente dependente de caixas pretas criptográficas importadas de fornecedores privados internacionais. O domínio dessa engenharia garante soberania estratégica sobre as chaves mestras das comunicações governamentais.
Observatório de blockchain e serviços públicos em registros distribuídos
O segundo eixo temático da seleção institucional apoia as atividades de engenharia do Observatório Nacional de Blockchain. O projeto tem como meta estruturar redes de registro distribuído públicas, interoperáveis e auditáveis voltadas a atender demandas de transparência da administração pública e do ecossistema científico.

Diferente das criptomoedas especulativas do mercado financeiro, as redes de blockchain promovidas pela chamada buscam garantir a imutabilidade e a rastreabilidade de dados governamentais essenciais. O sistema é ideal para o registro de diplomas universitários, concessão de patentes, rastreamento de insumos agrícolas e certificação de cadeias de custódia judicial.
Os pesquisadores analisarão a eficiência energética dos protocolos de consenso e desenvolverão mecanismos de governança aberta para prevenir a centralização do poder computacional da rede. A proposta prioriza algoritmos de baixo consumo elétrico e alta velocidade de confirmação de blocos.
A padronização das camadas de comunicação garantirá que diferentes órgãos públicos possam compartilhar registros sem atritos de formato ou aprisionamento em tecnologias de fornecedores específicos. A interoperabilidade lógica assegura a longevidade dos registros digitais produzidos pelo Estado.
O projeto funcionará também como um laboratório de testes aberto para novas aplicações desenvolvidas por startups brasileiras de base tecnológica, acelerando a transferência de conhecimento das academias para o setor produtivo.
Identidade soberana descentralizada com a arquitetura TRUST-ID
O terceiro componente estratégico da chamada pública é dedicado ao aprimoramento e expansão da arquitetura de identidade descentralizada conhecida como TRUST-ID. A solução visa proporcionar aos cidadãos e membros da comunidade científica o controle soberano sobre suas credenciais digitais de identificação.
Construída com base nos padrões internacionais de credenciais verificáveis do consórcio W3C, a tecnologia permite que o usuário comprove atributos pessoais sem expor seu histórico completo de navegação. Um estudante pode comprovar sua matrícula ativa perante bibliotecas digitais sem revelar seu número de documento nacional.
Essa abordagem descentralizada elimina a necessidade crônica de recorrer a botões de login corporativos operados por redes sociais estrangeiras que monetizam dados comportamentais. A chave criptográfica mestra fica armazenada no dispositivo móvel do titular, com checagem descentralizada na rede acadêmica.
A plataforma assegura total conformidade com os princípios de minimização e necessidade estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados. O sistema registra apenas os metadados indispensáveis para comprovar a validade da assinatura criptográfica emitida pelo órgão competente.
Com o lançamento da Chamada 12/2026, a RNP e o CNPq reafirmam seu papel de condutores da soberania tecnológica brasileira. Ao investir em cientistas dedicados à criptografia quântica, registros distribuídos e identidade aberta, o país constrói alicerces robustos para sua segurança informacional futura.